Acho que ninguém vai julgar o tamanduá por invadir o bar em uma noite de sexta-feira. O animal silvestre, vítima de um amor não correspondido, só queria a companhia de terceiros, uma ou duas garrafas de cerveja bem gelada e, claro, a boa música sertaneja, aquela raiz, de viola afinada, tocada por brutos, para então se afogar nos pensamentos.
Certamente que passou o dia todo na labuta da conquista, mas a parceira, na sua ignorância amorosa, fez a escolha por outro e o tamanduá, na tristeza de quem flertou durante o verão inteiro com a amada, viu-se derrotado, desolado, acabado. Sem pensar, deixou a mata fechada onde vive e se aventurou nas ruas de Campo Grande.
Andando atrás de qualquer lugar que lhe pudesse oferecer um simples sorriso, o tamanduá passou pela Rua Elvis Presley e pegou a Rua Centro Oeste, no bairro Jardim Morenão. Logo, avistou um típico boteco de vila, de cadeiras de plástico, mesa de sinuca, paredes com a pintura deteriorada pelo tempo e pessoas acompanhadas por bebidas.
Notou o ambiente aconchegante e entrou. Queria se embriagar com o suco de cevada, malte e leveduras que os humanos chamam de cerveja. Foi recepcionado pelos presentes e, de imediato, pediu a especialidade da casa. Preencheu a tristeza amorosa com álcool, hora, quem nunca!
Mas apesar dos amigos que ali fez, das figuras desconhecidas com quem brindou à vida, e dos causos – que mesclam entre a verdade e a mentira – que escutou, sua presença foi ameaçada. Acionaram a Polícia Militar Ambiental (PMA) para a captura. O bicho ainda tentou se esconder no banheiro, mas acabou preso e levado de volta à natureza.