05/11/2014 11h00
Montadoras correm para driblar desaceleração
BBC Brasil
Do lado de dentro do Salão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, jovens modelos com roupas provocantes e maquiagem carregada posam para fotos ao lado dos mais modernos lançamentos do setor automotivo: de esportivos de luxo a imponentes SUVs ou populares compactos.
Do lado de fora, dezenas de trabalhadores ligados ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos carregam faixas e cartazes em um protesto contra demissões e o que definem como “precarização do trabalho no setor”.
Certamente, esta segunda cena não é a que os patrocinadores do evento gostariam de ver estampada nos jornais.
“Mas todos esses carros com tecnologia de ponta são feitos por nós – e queríamos chamar a atenção do público e da imprensa sobre o que as recentes demissões do setor significam para as famílias dos trabalhadores”, explicou a BBC Brasil Antônio Ferreira de Barros, presidente do sindicato.
O protesto ocorreu na última sexta-feira, quando o Anhembi sediava o segundo dia do 28º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, maior feira automobilística da América Latina (aberta ao público até o dia 9).
Há cinco décadas, o evento é um palco para as montadoras atiçarem o desejo dos consumidores com as últimas novidades do setor. Carros conectados à internet, capazes de ultrapassar os 300 km por hora ou até modelos autoguiados.
Esta edição, porém, acabou também sendo marcada pelas incertezas e desafios dessa indústria que parece ter sido uma das mais rapidamente atingidas pela desaceleração da economia no Brasil.
Segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos (Anfavea), até setembro, a produção da indústria automotiva brasileira teve uma retração de 16,8% em relação ao mesmo período de 2013 – afetada pelo mercado interno fraco e a queda das exportações para a Argentina.
As vendas caíram 9,1% sobre o mesmo período de 2013 e os pátios cheios se tornaram a imagem-símbolo do desaquecimento econômico.
Milhares de funcionários do setor perderam seus postos de trabalho nos últimos meses (embora, segundo a Anfavea, a maioria deles tenha sido incluída em programas de demissão voluntária).
E, ao mesmo tempo, muitas fábricas planejadas nos anos de bonança começaram ou estão prestes a começar a produzir no país – entre elas Audi, Jaguar Land Rover, Chery e BMW, que apresentaram seus modelos “nacionais” no Anhembi.
“A dúvida é se haverá demanda para tanto carro, proque esses investimentos foram planejados quando se acreditava que o crescimento potencial do PIB brasileiro fosse de 4% – e hoje calcula-se que seja metade disso”, diz Rodrigo Baggi, especialista em setor automotivo da consultoria Tendências.
A chinesa Chery é uma das que teve de refazer planos, reduzindo sua previsão de produção para 30 mil carros.
“Em 2010 e 2011 esperávamos já começar a produzir com 50 mil. Naquela época, o mercado sinalizava que isso era totalmente factível. Agora nós nos adequamos a essa nova realidade”, disse Luís Curi, vice-presidente da Chery no Brasil, ao apresentar o modelo Celer, que a empresa passará a produzir a partir de novembro em sua recém-montada fábrica em Jacareí, no interior de São Paulo.
“Nosso segmento (de carros populares) é muito sucetível às dificuldades de crédito e as instituições financeiras continuam muito seletivas”, explicou.
Termômetro
Representando mais de 15% do PIB da indústria brasileira o setor automotivo sempre foi visto como uma espécie de termômetro da economia.
Na década passada, suas vendas cresceram cerca de 10% ao ano, o terceiro turno das linhas de montagem foi ativado e montadoras anunciaram novos investimentos e contratações.
Com a desaceleração, porém, o setor também parece ter sido um dos primeiros a sentir o aperto.
É verdade que o mercado brasileiro continua a ser visto como atrativo no longo prazo.
O Brasil é o quinto mercado automotivo do planeta e a avaliação das montadoras é que há espaço para crescer uma vez que, aqui, ainda há apenas um carro para cada 5,4 habitantes (enquanto nos EUA, por exemplo, a proporção já é quase de um para um).
“Mas no curto prazo as empresas estão tendo de correr para não perder um consumidor que está mais sensível ao preço, mas também quer qualidade, mais segurança e novidades tecnológicas”, diz Baggi.
“Em função da queda nas vendas, há uma briga dessas empresas para manter seu market share (parcela do mercado).”
Entre as estratégias das montadoras para segurar as vendas, segundo o analista, estaria um foco maior no interior do país e nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Não é a toa que uma das marcas desse salão do automóvel foi o grande número de lançamentos de picapes e SUVs – empresas como Honda, Jeep, Nissan e Lexus apresentaram novos modelos nesse segmento.
“Há um esforço das marcas para ganhar espaço em regiões que têm se beneficiado pelo crescimento do agronegócio e dos setores extrativistas”, diz Baggi.
“Isso se reflete tanto no lançamento de modelos que são populares nesses lugares quanto no esforço para ampliar a capilaridade de suas redes de distribuição.”
Luxo
Outro nicho ainda bastante atrativo, apesar da desaceleração, é o segmento “premium” – ou os carros de luxo – como enfatizou Phil Popham, diretor de marketing da Jaguar Land Rover, que está investindo R$750 milhões para abrir uma fábrica em Itatiaia, no Rio de Janeiro.
“No Brasil esse segmento representa hoje 2% do mercado, contra 10% na Europa”, diz ele, acrescentando que a expectativa é que chegue a algo em torno de 4% e 5% até 2020.
“Hoje os brasileiros estão tendo acesso ao segmento premium como não tinham antes. Os preços estão melhores”, diz Arturo Piñeiro, CEO da BMW, que recentemente inaugurou sua primeira fábrica brasileira, em Santa Catarina.
Piñeiro diz esperar que o segmento premium tenha um crescimento de cerca de 15% este ano, mas cobra reformas do governo para melhorar o ambiente para negócios no país.
“O principal desafio do novo governo vai ser voltar a fazer o Brasil crescer a um ritmo de 3 e 4% ao ano, voltar a controlar a inflação e sobretudo, melhorar toda a parte de infra-estrutura”, diz ele.
“O Brasil também tem pendente a reforma fiscal – essa é uma demanda latente na sociedade há muitos anos e uma realidade que o governo vai ter de enfrentar.”
Empregos
E os novos investimentos são uma boa notícia para os trabalhadores do setor?
As montadoras garantem que sim. A Jaguar Land Rover, por exemplo, pretende iniciar suas operações no país com 400 funcionários. A fábrica da Chery começou a operar com 300 pessoas, mas poderia chegar a 3 mil.
“Absorvemos muita gente demitida de outras empresas nos últimos meses”, garantiu uma funcionária da montadora chinesa.
Barros, do Sindicato dos Metalúrgicos, porém, é cético sobre o tema.
“Muitas empresas estão aproveitando a crise para contratar por salários mais baixos”, diz ele.
“Para nós o ideal seria que não houvesse demissões. É um absurdo que o governo dê bilhões em subsídios para essas empresas sem impor regras que impeçam a dispensa de trabalhadores. Até porque as empresas poderiam certamente passar por esse momento de queda nas vendas reduzindo um pouco suas margens (de lucro)”, critica o sindicalista.
