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Preconceito com exame de toque ainda é barreira para diagnóstico precoce

06/11/2014 12h30

Preconceito com exame de toque ainda é barreira para diagnóstico precoce

Dourados News

Em continuidade à abordagem especial sobre o ‘Novembro Azul’ o Dourados News destaca nesta segunda matéria que o preconceito ao exame de rastreamento (exame de toque retal) continua sendo uma barreira a ser derrubada em meio a população masculina.

Conforme levantamento de dados da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), cerca de 30% dos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) são diagnosticados com câncer de próstata já em estágio avançado da doença. Isso vai à contramão do fato de que se forem descobertos no início, 90% dos casos são curáveis. A estimativa é de que um a cada seis homens terá câncer de próstata ao longo da vida e um a cada 36 morrerá da doença.

“O preconceito até tem diminuído de certo modo por conta justamente de campanhas de conscientização que têm sido mais constantes. A orientação é a principal ferramenta para combater esses mitos culturais que acabam sendo um risco à saúde do homem, que por vezes se sente intimidado em se cuidar e incentivado a desprezar a própria saúde, seja pelo que é veiculado na mídia ou pela falta de campanhas de conscientização”, avaliou o delegado da SBU em Mato Grosso do Sul, Fernando Coutinho Pereira.

Pesquisa realizada pelo Datafolha para a SBU em 2009, com 1.061 homens com idades entre 40 e 70 anos, de 10 capitais brasileiras revelou que o preconceito com o exame de toque retal ainda é forte no Brasil. Apenas 32% dos homens brasileiros declararam já ter feito o exame.

Responsável técnica do setor de quimioterapia do Hospital do Câncer de Dourados, a oncologista clínica Sara Regina Scremin Wegner destacou ao Dourados News que a maioria dos pacientes que chegam para o tratamento só procuraram um médico quando já estavam com sintomas da doença.

São pacientes com sintomatologia exuberante. Isso significa que só foram atrás de um serviço de atendimento médico baseado no que estavam sentindo e não por um programa de prevenção e rastreamento precoce. Infelizmente, apesar do câncer de próstata ter no seu comportamento um perfil mais indolente e menos agressivo na maioria dos casos, o paciente já chega aqui com a doença bem avançada. Quase 100% têm sintomas. É muito difícil chegar alguém pelo rastreamento”.

Conforme exposto pela especialista, o homem só procura atendimento quando tem sintomas por conta de uma série de preconceitos relacionados principalmente ao exame do toque e ao fato dele se sentir vulnerável ao atendimento e também ao tratamento. De acordo com Sara é característico do homem simplificar as patologias e não compreender a relevância de fazer uso do que estiver ao seu alcance para preservar a própria saúde.

“O homem simplifica, vive a figura do super homem. Ele deve entender que precisa se cuidar por ele mesmo e pela família, porque não está imune ao câncer de próstata e a qualquer outra doença. Precisamos que ele se conscientize que não há beneficio nos avanços da medicina se as pessoas não procuram usufruir dessas possibilidades. Além de não procurar o serviço de saúde, ele não é aderente ao tratamento. Isso tudo motivado pelo preconceito. A maioria dos pacientes de câncer foram levados ao tratamento por um familiar. Pouquíssimos vieram voluntariamente. É importante vencer esse preconceito e ter a consciência de que o diagnóstico e o tratamento estão disponíveis e ele precisa fazer de tudo que está ao seu alcance para preservar a própria saúde, tanto quanto a mulher”.

Na rede do SUS, o exame de toque está disponível na rede básica de saúde ou em centros especializados de saúde do homem, que existem em pouquíssimos municípios do país de acordo com a SBU (em Mato Grosso do Sul, existe apenas na capital, Campo Grande). O PSA [exame de sangue], que complementa o exame de toque para um diagnóstico preciso, também é ofertado na rede pública. Todo homem a partir de 50 anos deve fazer o exame periódico. Se houver histórico familiar e se a pessoa for negra ou obesa, a recomendação é procurar um urologista a partir dos 45 anos.

NOVEMBRO AZUL

A campanha Novembro Azul é realizada há cinco anos e, de lá para cá, houve um pequeno aumento no número de diagnósticos precoces, de acordo com a SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), que promove a campanha junto do Instituto Lado a Lado, que é uma ONG (Organização Não Governamental).

O principal objetivo é orientar a população masculina sobre a importância do exame de toque retal e PSA (quer dizer “Antigénio Específico da Próstata”, utilizando-se internacionalmente a sigla PSA, do inglês “Prostate Specific Antigen”) para diagnóstico precoce do câncer de próstata, que é mais incidente na população brasileira que o câncer de mama, conforme dado do Inca (Instituto Nacional do Câncer).

Oncologista Sara Regina avalia que pacientes ainda preferem minimizar a importância da prevenção
(Foto: Thalyta Andrade)

Urologista Fernando Coutinho Pereira diz que ainda é preciso avançar muito (Foto: Divulgação)

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